Às pessoas muitas vezes me vêem como um mal, como uma infelicidade, um infortúnio. Muitos têm medo de minha pessoa, muitos mesmo. Alguns pensam em mim como um ser maligno, uma coisa má, ou como um castigo. Pensam que se forem bons durante toda a vida terão o mesmo destino da Branca de Neve, ou Cinderela, viverão felizes para sempre. Não.
Já outros me vêem como uma recompensa depois de uma longa vida, uma vitória, que dependendo do que já havia feito em vida poderia se orgulhar e aí sim viver feliz para sempre sem culpa alguma ou peso algum. Pessoas que aproveitaram à vida podem sentir isso, pessoas que de tanto sonhar realizaram seus sonhos, pessoas felizes. Essa sim é a recompensa de quem foi bom por toda a vida.
Aquelas pessoas que maldades cometeram essas sim não irão me ver como recompensa, e sim um peso em suas cabeças. Onde não eu, mas sim as frases como “Eu deveria...” ou “Eu podia...” serão suas grandes tempestades, suas grandes penas.
Eu sou a Morte.
Alguns pensam que eu sou um grande esqueleto de prata e olhos vermelhos, com uma foice e uma capa longa e preta. Não me vêem como algo comum, com seus deveres e suas obrigações, como qualquer um. Alguém com chefes e afazeres, recebendo ordens e cheia de comprometimentos. Simplesmente me estereotiparam dessa forma.
Eu poderia dizer que nada mais poderia me surpreender nessa minha existência, que desde os tempos de Adão, me enchera de surpresas. Eu acreditava que nunca mais depois da história do Sr. Thomas e Miss Penélope, que envolveram grandes surpresas e sentimentos, eu me emocionaria. Imagine só, um esqueleto de capa chorando e secando as lagrimas em um lencinho. Nunca imaginei que depois da história de Paulo Jordan eu sentiria medo. Nunca imaginei que depois da história de Gregório Stancovich eu me surpreenderia.
Eu havia visto de tudo, tudo mesmo. Vi grandes heróis e acompanhei seus feitos batendo palmas. Vi alegrias, reencontros que me emocionaram, vi histórias tão complexas que não poderia descrever com as teclas desta máquina de escrever.
E depois de tudo isso, eu nunca mais pensei que algo pudesse me surpreender ou me emocionar novamente. Nunca mais vi uma história tocante, uma história heróica, uma história digna ao ponto de eu bater palmas. E eu estava cética que assim seria pelo decorrer doas anos ou eternidade, nunca se sabe.
Mas eu estava errada.
São nos momentos mais funestos e sombrios que as coisas mais puras, as coisas mais nobres se revelam, pois sem o mal não há bem e sem o vilão o herói não existiria. É nessas épocas que os grandes se revelam.
1940. O mundo se explodia em uma guerra inútil que até hoje não entendo os fundamentos. Pessoas morriam e por mais que eu odiasse por meu trabalho na ponta das armas criadas pelos ignorantes, eu não podia descumprir as ordens. Pessoas boas morreram; pessoas com futuros brilhantes, pessoas cujos destinos poderiam ser admiráveis. Foi um tempo horrível.
Mas eu tive tempo de presenciar uma das histórias, uma que até hoje não vi igual, ocorrer. Uma história digna de um livro que eu, a temida Morte, relato nessa maquina de escrever às luzes de velas.
Londres não era mais segura. Os cidadãos temiam os ataques aéreos e as crianças dormiam atormentadas pelo receio de algo acontecer.
Os trens saíam lotados de famílias a procura de lugares seguros onde poderia viver em paz. Alguns por problemas ou por débitos a suas obrigações mandavam apenas seus filhos, para lugares que serviriam de refugio a elas. Como eu havia dito, Londres não era mais segura.
Era fim de novembro.
lol